O que falam de mim

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André Di Bernardi Batista Mendes escreveu em 13/10/2007 no caderno Pensar do jornal Estado de Minas

ALMA REVELADA EM FLASHES

Apostando na concisão do conto e na esperteza de um olhar preciso, Nereu Afonso da Silva estréia com o já premiado Correio Litorâneo

Cotidiano revisto de forma crua, sem paramentos e conceitos predefinidos. O desalinho. O que está ao lado e seu valor real percebido com a pertinência de uma delicadeza pronta. Simplesmente o que existe revisto sem fórmulas e sem posturas rígidas com um tipo de simplicidade, com um estilo sem estilo que convence sem embriagar. O cotidiano ampliado na medida certa, um clique, um flash, e pronto, até que se instala a sensação de pura nitidez. A pedra está nua, mas é preciso coragem para saber dizer de suas cores. Eis a receita utilizada por Nereu Afonso da Silva, que estréia na literatura com o livro Correio Litorâneo, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura de 2006.
Escrito em Paris, entre 2003 e 2004, a obra foi dividida em dois blocos: Uns e Outros. O primeiro traz os contos Úngaro dos Passos; Amarelinho amarelinho; O eco da piscina e Leitão. A segunda parte é composta pelos contos Goma-arábica; Queimada Grande; Um buraco na tarde e Migravit ad Dominum. Destacam-se da primeira parte Úngaro dos Passos, que abre o livro, e O eco da piscina, talvez o melhor do livro. No primeiro, Nereu parte de um obituário para contar a incrível e surreal história de um meliante que conquista uma legião de cúmplices e admiradores, que lhe dirigem esta singela homenagem escrita: “O caminho do roubo é longo. É difícil. E se revela cada vez mais comprido, de não se lhe ver o fim – se é que fim existe.” Não há salvação. É que, como sublinha o autor, por meio da máxima do personagem marginal: “Um delito raramente vem desacompanhado. Quando mal acabou de ser executado já está dando lugar a outro, louco para ser levado a cabo.”
Em O eco da piscina, Nereu mergulha fundo no lírico para mostrar de forma linda, mas não menos triste, a solidão de um personagem que, em suas próprias palavras, “nada para mobiliar o vazio que tenho de sobra”. Nereu se solidariza com este peixe-homem que nada “anestesiado pelo quadrado azul e líquido da piscina”.
O substrato da alma humana floresce a cada conto. Os textos, lapidados em sua forma, mostram um autor maduro, pronto para o exercício do olhar. Daí, talvez, a escolha, a aposta certeira de fazer contos. Abordando diferentes universos, todas as histórias do livro são ligadas a uma corrente temática, estão amarradas em torno de notícias de um jornal fictício Correio Litorâneo. Nereu inventa seu rumo, como um cronista de seu tempo, e leva junto o leitor, pois para todas as histórias ele soube encontrar o tamanho certo e fôlego propício.

Sensação de desamparo

Da segunda parte da obra fica a lembrança firme do texto Um buraco na tarde, que escancara a história de um homem que convoca a memória como se ela fosse o derradeiro lume que irá iluminar o avançado escuro de um quarto. Fica a sensação de um desamparo brutal, pois o personagem tenta, tenta a todo custo “formalizar a ausência” e busca reter um pouco mais tudo aquilo e aqueles que simplesmente se afastam, sem música e remissão. A perda vista e sentida por dentro, com todas as pontas de espinho, de dor e de loucura que ela é capaz de trazer escondida em suas mangas travestidas de morte: o amplo vazio, a radicalidade da carência extrema.
Chama a atenção na obra o modo como se coloca cada situação. Se há violência, ela é narrada com as doses certas de uma sensibilidade aguçada, sem o rubro do sangue exposto: apenas poesia e delicadeza, deixando de lado desnecessárias intenções retóricas, mesmo quando o tema abordado é a solidão, ou a sordidez da, às vezes pequena, alma humana. Nereu retira o véu da realidade e mostra, sempre com argúcia e com um humor para lá de fino, seus meandros, para logo em seguida fechar as cortinas deste teatro barroco. Nereu prova que é possível manejar o barco das palavras com um vocabulário simples, mas diferente, rico de substantivos instigantes: Úngaro, xarelete, Guaraú, mequetrefe, goma-arábica etc. Com pinceladas de comédia e drama, os contos abordam temáticas universais, como a sabedoria, o crime, a falta de amor, a morte, que poderiam se transformar facilmente numa armadilha corriqueira para escritores afoitos. Mas o autor não é bobo e soube transformar esse complexo fardo para produzir um farnel literário, no mínimo, honesto.
Nereu que já foi palhaço (participou do grupo Doutores da Alegria), parece que soube buscar nessa experiência um estilo e um suporte lírico que aparecem de forma marcante em seu texto. A alegria de quem escreve faz brotar um sorriso na alma do leitor atento. O paulista Nereu Afonso da Silva é formado em filosofia e também enveredou para o teatro. Hoje vive na França, onde escreve, atua, leciona e dirige suas peças.

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Marcelo Alves escreveu no Jornal do Brasil em 22/12/2007 

QUEM TEM TALENTO PODE APARECER EM PAPEL

Blogs e editoras virtuais não são o caminho único para jovens escritores
Marcelo Alves –
PROFESSOR DE LITERATURA

Ter o seu texto lido deixou de ser uma tarefa árdua para novos autores, pois o crescimento vertiginoso da internet propiciou uma alternativa ­ blogs ou editoras virtuais ­ para alcançar um determinado público. Porém, à medida que se estabelecem tais meios para angariar leitores, pode surgir outro problema: como encontrar espaço no mercado de livros nos meios de distribuição convencional? Talvez a imagem do fiador, aquele que vai respaldá-lo na praça ­ imagem utilizada certa vez por Ezra Pound, ao falar sobre literatura e reconhecimento ­ seja a resposta para o crescente número de inscritos para o Prêmio Sesc de Literatura, concurso nacional exclusivo para inéditos.

Antes, um balanço de alguns premiados. Vencedor no primeiro ano, Marco Aurélio Cremasco foi um dos finalistas do Prêmio Jabuti e lançou um livro de contos pela Record, Histórias prováveis; Eugênia Zerbini e Lúcia Bettencourt caminham para o segundo livro, respectivamente um romance e uma coletânea de contos; André de Leones participou recentemente do polêmico projeto literário Amores Expressos, da Companhia das Letras.

Neste último ano do concurso, as comissões formadas por Bernardo Azjenberg e Ivan Marques (na categoria romance) e Cristiane Costa e Flávio Moreira Costa (na categoria contos) elegeram os vencedores: Wesley Peres, com o romance Casa entre vértebras e Nereu Afonso da Silva com o livro de contos Correio litorâneo.

Em Correio litorâneo, há um ponto de referência. Um jornal com o mesmo nome que confere aos personagens um valor de verdade, e muitas vezes confiança, na palavra impressa, o que é curioso em tempos nos quais a palavra digital ganha cada vez mais espaço e valor. Há nisso um certo saudosismo, uma vez que o jornal ganha valores e funções nas narrativas.

O livro está dividido em duas partes: “Uns” e “Outros”. Tais índices mostram alguma vaguidão, referentes indeterminados, personagens que poderiam passar despercebidos por nós, mas que se tornam singulares quando focados. No primeiro conto, “Úngaro dos Passos”, um dos melhores do livro, o autor burila com o gênero textual obituário para nos apresentar o meliante Úngaro, espécie de anti-herói capaz de arrebatar admiradores ao longo de uma vida de crimes. Neste texto, é possível perceber o jogo irônico e a inversão de valores, os quais vão provocar uma sensação de leveza e bom humor, humor fino, diga-se de passagem.

Narrador infiel – O narrador, sobretudo no primeiro bloco, não é muito fiel, capaz mesmo de aproveitar-se da confiança do leitor. Como neste trecho, em “Úngaro dos Passos”: “É o que a história conta. Moveu-se desse modo: afanando de tudo — não de todos, mas de muitos. Virou perito”. Ou no conto “Amarelinho, amarelinho”, que narra as desventuras de um vigarista, anti-herói que seduz o ingênuo Rufino: “Acabou preso o vigarista, que, nesse mundo de justiça certa, vigarista acaba sempre preso. Não tem conversa”.

Na segunda parte, o tom leve de humor cede espaço à busca por um relato mais dramático, sem, contudo, perder o cerne do absurdo no cotidiano que baliza os contos. Destaca-se “Queimada Grande”. Neste, há um jogo de inversão em que o capitão de um navio encalhado numa costa é percebido por uma dona de casa, Noquinha, algo como uma sereia, capaz de seduzir para ir ao encontro de seu objeto de desejo. Em sua vã tentativa de se libertar do marasmo que é a sua própria vida, morre no mar em busca do capitão.

Os contos de Nereu, construídos a partir de uma linguagem que se pressupõe simples, não simplista, revelam uma grata surpresa para todos os leitores, que foram agraciados também com um outro belo presente. Estreante na categoria romance, Wesley Perez nos brinda com um texto maduro e contemporâneo, que não abre mão das técnicas literárias depositadas pelas gerações anteriores.

Um texto que impressiona. Casa entre vértebras é um texto que impressiona. Temos um homem que passa a escrever sobre temas que o angustiam, num ritmo vertiginoso e fragmentado. Através da concepção textual da prosa poética, cada palavra compõe um quadro raro e delicado sobre o dito e o não dito que a linguagem é capaz de produzir. O narrador nega a casa como refúgio, para refugiar-se nas junturas que flexionam as vértebras, os temas que aborda, estando assim sob o signo da mobilidade.

Há uma busca em alcançar, espécie de luta vã com as palavras, o abismo da linguagem, o território obscuro em que as palavras são insuficientes. Trata-se de um romance corajoso e denso que explora a tensão entre a arquitetura do dizer e a pulsão angustiosa da vida que nos constitui. Rompe com uma estrutura narrativa que valoriza construções reais do mundo, modelo de consumo literário vigente em nossos dias. Não há nada de novo nisso: autoras como Clarice Lispector já o fizeram. Contudo, o que surpreende é o escritor, em seu primeiro romance, alcançar tal maturidade, criando boas expectativas para seus próximos trabalhos.

Aventurar-se na leitura de autores estreantes, como Nereu Afonso da Silva e Wesley Peres, é fonte de um prazer literário que nos enriquece, uma vez que se trata de autores selecionados exclusivamente pela qualidade do texto. Esse processo busca e legitima uma espontaneidade – nem sempre tão presente – no mundo literário, o que só beneficia tanto os escritores quanto o mercado. E nós, leitores.

 

 

 

 

Lúcia Bettencourt, em outubro de 2007, em palestra na Universidade de Santiago de Compostela, citou

 […] Nereu Afonso da Silva, e seu Correio Litorâneo – uma coletânea de contos muito bem humorada, mas onde o riso se trava por um atento exame dos descaminhos a que o ser humano se vê levado a percorrer […]

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Márcio Renato dos Santos escreveu em 16/10/2007 no jornal Rascunho 

JORNAL É PERSONAGEM LITERÁRIO

Um jornal como item, ou no mínimo personagem, literário. Um mesmo jornal presente, recorrente, em um livro de contos. O jornal existe. É o Correio Litorâneo, título do livro que venceu o Prêmio Sesc de Literatura de 2006 na categoria contos. O dono da idéia, autor do livro, primeiro lugar no concurso, chama-se Nereu Afonso da Silva.

A estratégia de Nereu Afonso da Silva foi inserir o jornal Correio Litorâneo como elemento, circunstância, personagem literário enfim em meio aos contos. No texto O eco da piscina, é o jornal que informa: “aquela história que saiu ontem no Correio Litorâneo, a história do rico estrangeiro que, seduzido pelo efeito do eco produzido pelas paredes de uma piscina coberta, comprou tudo, demoliu tijolos e azulejos, transportou-os a seu país para lá reconstruir com os mesmos tijolos e azulejos a mesma piscina”.

O jornal Correio Litorâneo, artifício literário do livro de Nereu Afonso da Silva, funciona como qualquer impresso da realidade. Comunica aos leitores acontecimentos. Ações. Ocorrências. E o fato de o autor ter optado por um jornal como item literário justifica a linguagem utilizada em todo o livro. Os jornais – todos sabemos, todos sabem – oferecem aos leitores textos tidos como enxutos, diretos, de fácil compreensão. Assim se dá nos diários da realidade. Assim se dá nas páginas de Correio Litorâneo.

Falar de alguém que até poucas horas atrás vivia bem e que, agora, por uma dessas fatalidades de carro batido em curva de estrada, encontra-se em um leito de pronto-socorro, entubado pelo nariz, pela boca, pelo ânus, agulhado na veia do braço, esfolado, sedado, chegando pouco a pouco à extremidade de sua existência, falar de alguém nesse cenário é tarefa arriscada, destinada ao fracasso, até mesmo para o mais delicado dos tatos.

Para quem fica haverá o enterro amanhã e talvez uma missa requerida pela reduzida família ou por um ou outro colega. Depois cada um voltará para sua casa e certamente fabricará sua própria receita de luto: sozinho no chuveiro, à mesa com as crianças, no ônibus ou no elevador que levam ao trabalho, às quartas-feiras ou aos domingos. Pouco importa. O que fato é que alguns dos conhecidos, que estão vivos, convidarão o morto para um passeio mais ou menos longo, mais ou menos freqüente, mais ou menos opaco em suas memórias.

Os dois parágrafos transcritos anteriormente compõem o ponto alto, emocionado, emocionante, de Correio Litorâneo e iniciam o conto Migravit ad Dominum. Referência possivelmente recortada da realidade, recriada literariamente. E assim o autor também opera nos outros sete contos. Mortes. Golpes. Acasos. Azares. Sortes. E outras cotidianidades reais adquiriram espessura artística a partir de verve e bossa deste escritor paulista formado em filosofia, também ator, um dos Doutores da Alegria, hoje a transitar em território europeu, França em particular.

*** 

Margareth Xavier escreveu em 22/09/07 na coluna Folha da Bahia
 

“Prêmio Sesc de Literatura 2006, Correio Litorâneo é o livro de estréia de Nereu Afonso da Silva, muito bem-recebido pela crítica. Coletânea de contos curtos, reúne notícias publicadas num jornal fictício homônimo ao título, divididas em dois blocos: “uns” e “outros”. Em cada uma, narrações da vida cotidiana, mistura de humor e drama no trato, em poucas linhas, dos grandes temas humanos como amor, solidão e morte.” 

 

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Daniel Estill escreveu em 15/09/2007 no caderno Prosa & Verso, em O Globo

RITMO LITERÁRIO CIRCENSE

Vencedor do Sesc de Contos apresenta o humor em tempo narrativo perfeito

Nereu Afonso da Silva guardou o seu Correio Litorâneo por um par de anos antes de enviá-lo ao prêmio Sesc de Literatura de 2006. Segundo conta, não procurou publicá-lo, não o submeteu a pareceres, a não ser de conhecidos ocasionais. Talvez não achasse que o livro fosse grande coisa. Afinal, oito contos breves reunidos num pequeno volume, de alguém mais envolvido com teatro do que com literatura, não havia de despertar muita atenção. De fato, uma impressão geral do livro é que se trata de trabalho despretensioso, escrito pelo prazer de escrever e se divertir fazendo isso.
Mas como dizia Mário de Andrade, todo autor é vaidoso, se mostra o que escreve, é por vaidade, se não mostra, é pelo mesmo motivo. E Nereu, ao tirar sua vaidade da gaveta, levou o prêmio Sesc de Literatura na categoria contos de 2006. Só que, antes de apresentar-se como autor, Nereu apresentou-se como palhaço. Foi voluntário dos Doutores da Alegria, organização que leva alegria a crianças internadas em hospitais, transformando riso em terapia. Sabendo-se do passado circense de Nereu, e também que é ator e professor de teatro, é impossível não perceber a presença do drama em seus textos.
Ele parece escrever do picadeiro, ou do palco, chegando a tratar os leitores por “senhoras e senhores”, beirando o “respeitável público”, em alguns contos. Além disso, é uma prosa de ação com pouquíssima descrição e um gosto pela criação de atmosferas a partir de pequenos detalhes quase cenográficos. O narrador de Nereu é, antes, um apresentador de personagens e situações, com um texto que, por sua oralidade, parece pronto para ser lido em voz alta e dramatizado no palco, ou no picadeiro.

Risos provocados por personagens ridículos

O livro divide-se entre “Uns” e “Outros”, seguindo a pauta ao jornal fictício Correio Litorâneo, que, de alguma forma, aparece em todas as histórias. “Uns são contos humorísticos, “Outros”, textos mais pesados, “sérios”. Entre uns e outros, a morte é presença contínua, ora tratada com riso, como no obituário do mestre ladrão de “Úngaro dos Passos”, ora com o peso da ausência que provoca, como em “Um buraco da tarde”.
Mas, uma vez palhaço, sempre palhaço. É nos contos que nos fazem rir que Nereu se diferencia. Os risos são provocados por personagens ridículos, que se orgulham disso, como bons profissionais do picadeiro. A melancolia e a solidão dos bufões, a ilusão de nos fazer rir deles, quando, na verdade, são eles que riem de nós.
Já nos contos “Outros”, Nereu abandona o humor para tratar da morte de maneira mais dramática e convencional. Ao deixar a verve histriônica de lado, os contos perdem a espontaneidade que o diferencia nos primeiros textos e ele traz para a ficção situações e narrativas que, se não chegam a ser clichês, são conhecidas. Estão lá o narrador da própria morte, em “Um buraco na tarde”, o texto sobre a violência urbana, em “Goma-arábica”, em contos certamente bem escritos, mas sem o carisma da primeira parte.
Talvez o conto “Queimada Grande” possa fugir dessa crítica, pela originalidade do tema e pela condução narrativa. Uma dona de casa lê, no Correio Litorâneo, sobre um cargueiro encalhado na costa e resolve abandonar o lar e remar até o encalhe para entregar-se ao capitão do navio que tenta salvar a embarcação. Em seu sonho, o comandante a salvará do próprio encalhe de sua vida e a levará mares afora. Belíssima história, que se destaca das outras três que a acompanham.
Mas, é nos contos da primeira parte que Nereu exibe seu talento. A frase curta, a linguagem precisa e demais características que aprendemos a considerar como qualidades do texto contemporâneo dão forma a histórias originais e surpreendentes, em que o humor reveste-se de melancolia com personagens patéticos e adoráveis.
O humor exige velocidade e medida para obter seu efeito no momento certo. Sem dúvida, a maior qualidade da prosa de Nereu é um sentido de tempo narrativo perfeito, um ritmo exato para contar cada uma de suas histórias e despertar o sorriso e a simpatia, ainda que com travo de amargura subjacente.

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André de Leones escreveu em 19/08/2007  no Diário de Cuiabá

SIMPLICIDADE ENGANADORA

O premiado Correio Litorâneo, livro de estréia de Nereu Afonso da Silva, esconde por trás de sua aparente simplicidade uma grande sofisticação

André de Leones*
Especial para o Diário de Cuiabá

Correio Litorâneo é o nome do pior jornal do planeta. O periódico marca presença, direta ou indireta, em todos os contos do excelente Correio Litorâneo (Record, R$ 25,00), livro de Nereu Afonso da Silva que venceu do Prêmio Sesc de Literatura 2006 em sua categoria. Na categoria romance, o vencedor foi Casa Entre Vértebras, experiência-limite de Wesley Peres, já resenhado neste espaço. Correio Litorâneo chega ao público graças ao aval dos membros da comissão julgadora, formada, na etapa final, por Flávio Moreira da Costa e Cristiane Costa, e com o selo de um dos maiores grupos editoriais do país. Nada mal para um livro de estréia.

Nereu Afonso da Silva desenvolve suas histórias com grande desenvoltura, alternando momentos de grande humor com outros, de gravidade nem um pouco forçada. O livro é dividido em duas partes. A primeira delas, Uns, tem uma levada agradável e bem humorada, mas o autor, volta e meia, pega o leitor no contra-pé. De fato, a aparente leveza e o bom humor podem dar a impressão de que, a princípio, o livro sirva apenas para uma leitura despreocupada. Felizmente, não é esse o caso, e a segunda parte, Outros, funciona como um balde de água fria no leitor que já se julgava em terreno seguro.

Logo no conto que abre o volume, Úngaro dos Passos, já se torna evidente que estamos diante de um contador de histórias de mão cheia, cuja sofisticação é perceptível graças à maneira como trabalha a ironia. O personagem-título é um ladrão com pompa de profeta, que cedo sente um “oco revolucionário aumentando em seu espírito” e, mais tarde, já “consagrado”, conta suas proezas aos seguidores (ele não tem cúmplices, mas fiéis) “mais por instinto pedagógico do que por vaidade.”

Sobre esse conto, um dos melhores do livro, Nereu disse, com exclusividade para o Diário de Cuiabá, o seguinte: “Apenas tive vontade de confrontar esse personagem infantil àquilo que socialmente, oficialmente e ‘psicanaliticamente’ representa a autoridade: o adulto, o pai, o policial. Recheei de sátira a questão da viagem iniciática daquele que se isola por anos para ‘aprender’, para ‘conhecer seu caminho’ e penso ter, também através do humor, transformado o ‘handicap’ em ‘algo mais’ com a questão da falta do dente incisivo superior.”

Ainda na primeira parte, o conto Leitão marca presença como uma sátira hilária do brazilian way de se fazer política. O tom oficialesco da narração e o fato de o protagonista ser homônimo do autor levam a extremos a comicidade da situação explorada ali, na qual, dentre outras coisas, um prefeito lavra um processo que não existe. Como não poderia deixar de ser, o autor se inspirou em um fato real.

O melhor conto do livro, entretanto, não prima pela hilaridade. Um Buraco na Tarde é a narrativa perturbadora, potente e rascante de uma tragédia. Essas mudanças de tom perpetradas ao longo do livro impressionam. De fato, a destreza com que o autor trafega pelos diversos elementos que compõem os contos do livro, sem que o mesmo soe irregular, esquizofrênico ou mal organizado, é mesmo exemplar. E é justamente o derradeiro parágrafo do conto Um Buraco na Tarde o que dá bem a medida do talento de Nereu Afonso da Silva e justifica, sobremaneira, o prêmio recebido por Correio Litorâneo:

“Os dentes apertam e já arranham o ferro da arma, a mão treme, o gatilho feito mola inicia sua trajetória. Lembrou-se muito lucidamente que esquecera de trocar a lâmpada de 60w da cozinha, mas agora, com o tambor do revólver girando, às seis em ponto, já era noite o buraco da tarde.”

*André de Leones é escritor e colabora com o DC Ilustrado (http://aleones.wordpress.com/ )

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Leandro Mazzini escreveu em 05/07/2007 no JBOnline

Correio Litorâneo, uma boa notícia.

 

“Quando passar numa livraria, procure por essa boa revelação – quem leu já me disse ser muito boa estréia: Correio litorâneo (Record), de Nereu Afonso da Silva. Vencedor do Prêmio Sesc 2006 na categoria contos. São histórias fictícias publicadas num jornal não menos fictício. E hilárias.”

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