O que ando lendo

Um flash de comentários sobre algumas coisas que andei lendo ou relendo ultimamente. Se te interessa, aparece  para ver as novidades que colocarei aqui regularmente. Mas antes, duas palavrinhas amigas:

Se um livro me desagrada, eu pego um outro; e só volto àquele no momento onde o tédio de não fazer nada se apodera de mim. [Ensaios, Montaigne] 

O excesso de leitura tira do espírito toda a elasticidade, da mesma maneira que uma pressão contínua tira a elasticidade da mola. O meio mais seguro para não possuir nenhum pensamento próprio é pegar um livro nas mãos a cada minuto livre. [Parerga e Paralipomena, Schopenhauer]

 

 

– 2009 –

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La théorie des nuages, (A teoria das nuvens), Stéphane Audeguy

Romance de relativo sucesso na França que tem a particularidade de utilizar suas 320 páginas para tratar de nuvens. Akira Kumo, um japonês sobrevivente de Hiroshima, ex-estilista de alta costura, além de colecionar objetos raros e documentos sobre a história da meteorologia, dedica-se a contar fatos sobre nuvens a Virginie Latour, a nova bibliotecária de sua casa parisiense. A partir daí, uma miríade de figuras reais e fictícias ligadas ao avanço das pesquisas meteorológicas se juntam à história. Destaque para Richard Abercrombie e para a redação e “ilustração” de seu Protocolo Abercrombie. Uma boa história. Nem ótima, nem ruim: boa.

 

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Lunar Park, Bret Easton Ellis

Ai, ai, ai. Pensei em abandonar a leitura desse livro várias vezes, tamanha era a preguiça que me causavam as peripécias do narrador. Mas a cada vez que tomava minha decisão, o espertinho do autor lançava mão de uma reviravolta na intriga capaz de prolongar o suspense – e consequentemente o meu interesse – por mais umas dezenas de páginas. E foi assim até o final. Se o livro me agrada? Sim e não. Estão lá nas quase 500 páginas todas as angústias, paúras, relações com as drogas e com a família, tratadas em tom auto-ficcionais pelo autor-narrador. Ellis tem a capacidade de compor personagens muito convincentes e consistentes nas mais bizarras situações. Mas por vezes, nos deixa  a sensação de um acúmulo desnecessário de gordura e flacidez em sua linha narrativa.

 

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Prisión perpetua, (Prisão perpétua), Ricardo Piglia

Duas novelas compõem o volume da edição argentina que me caiu nas mãos. As duas, independentes – mas não tanto – se insinuam em diferentes formas de narração. O conto fantástico, a intriga policial (impossível não pensar em Borges), a crítica literária, o relato sentimental e a autobiografia se entrelaçam, se esticam, se desfiam entre uma e outra novela. Um caleidoscópio narrativo – ou um jogo de espelhos, como diz a apresentação do livro – nos desestabiliza apesar da aparente linearidade das histórias. Ao ler, posso imaginar o prazer do escritor em construir seu texto. Mas, por esses mistérios que circundam a noção de gosto, constato que, dessa vez, o prazer não foi o que predominou em minha leitura.

 

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Journal d’Aran et d’autres lieux, Nicolas Bouvier

Li o Journal d’Aran pela primeira vez nos anos 90. Foi meu primeiro contato com esse autor que depois descobri melhor em La chambre rouge e em trechos de L’usage du monde. Sua prosa em Journal d’Aran é de uma clarividência exemplar. Um relato de viagem desprovido de aventura mas não de ousadia. De ousadia em pousar seus olhos, seus ouvidos junto às vozes de moradores da ilha de Aran que crepitam com a lareira, ou para simplesmente acariciar os ventos do largo da Irlanda e transformar esse quase nada em poesia.

 

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Les Essais, Montaigne

Além de minha antiga versão dos Ensaios, em português, publicada pela coleção Os pensadores, e de uma coletânea de trechos chamado Le meilleur des Essais (O melhor dos Ensaios), decidi ampliar minha pequena biblioteca e degustar um pouco mais desse autor que não paro de apreciar a partir de uma versão de bolso (não a completa em 3 volumes) bastante prática e séria. Os textos escolhidos obedecem a critérios que, por enquanto, me satisfazem plenamente. Uma série de comentários e “chaves de leitura” acompanham o volume de 530 páginas. De qualquer modo, uma vez esgotada essa seleção (se é que isso é possível) terei, se quiser, muito o que ler no que ficou de fora dessa peneirada.  

 

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Brefs entretiens avec des hommes hideux, David Foster Wallace

 Estou lendo esse escritor americano em sua tradução francesa. São 23 contos em 440 páginas de livro. Alguns estão entre os melhores contos que li ultimamente (“Au-dessus à jamais”, “Adult world”): uma potência bizarra e um poder de persuasão que não me deixam desgrudar da página. Outros, estranhamente, me afastam e me impelem a abandonar o texto, a ir visitar um outro conto para eventualmente voltar mais tarde.

 

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Effroyables jardins, Michel Quint

Sabia que o livro tratava de palhaço e de guerra. Não deixa de ser verdade. Mas houve um incômodo na minha leitura desse livro que é difícil de explicar: é algo como uma sensação de desarmonia entre o tamanho da história e o que ela conta. Não é uma má história, pelo contrário. Talvez não esteja explorada até onde mereceria ter sido… No Brasil, a tradução leva o nome de Jardins assustadores. Na França, um filme foi feito a partir desse texto.

 

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Jeunesse, Joseph Conrad

Li Juventude, de Joseph Conrad também em francês. A narrativa curta da aventura infindável de um barco que navega (que deveria navegar) da Inglaterra até o Oriente cativa pela capacidade do autor em apresentar esperança no fracasso. Homens fadados ao naufrágio, solidários, merecem descançar num “paraíso”. Conrad torna sensível o ranger dos mastros, o casco encharchado e a areia clara de uma praia oriental. Simples, simples…  Parece!

 

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O livro das igrejas abandonadas, Tonino Guerra

O autor talvez seja mais conhecido como roteirista de filmes de Felini, Antonioni e Tarkovski, mas é também autor de obras literárias em italiano e em dialeto romanholo. O livro das igrejas abandonadas é formado por curtíssimos textos que tratam de pedras, ruínas, vales e pessoas suspensas no tempo. Me foi dado por meu velho amigo e cineasta, Alexandre Braga, junto com a versão final de seu filme “Ce n’est pas une chanson d’amour”. E, talvez por isso, sua leitura me seja tão cara.

 

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Parler de la mort, Françoise Dolto

A psicanalista francesa, conhecida por seus trabalhos voltado à infância, discorre nessa conferência sobre a questão da morte colocada pelas crianças e sobre as possíveis respostas a tais questões. Instrutivo.

 

 

– 2008 –

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O filho eterno, Cristovão Tezza

Será que os prêmios literários contemplam sempre as melhores obras? A questão, além de irrespondível, é quase oca. A melhor obra para quem? Quando? O sem-número de obras que passaram longe das melhores vendas, das melhores críticas e da consagração dos “melhores” juris e que mesmo assim um dia vieram à tona descobertas como obras primas é considerável. Algumas sobreviveram com esse estatuto. Outras voltaram ao esquecimento. A discussão é, portanto, infindável, e muitas vezes chata. Falo esse blábláblá todo, mas se eu inventasse  um prêmio para minha melhor leitura de 2007, ela provavemente também iria a Cristovão Tezza, porque seu Filho eterno é bom, é bom e muito bom mesmo.

 

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Nascido para matar… de rir, Steve Martin

Foi o ator e palhaço Cláudio Carneiro quem me falou pela primeira vez desse livro. Quando surgiu a tradução para o português, todos os palhaços da trupe do Jogando no Quintal receberam um exemplar de presente de natal. O de Vera Abbud, mal chegou em suas mãos e caiu nas minhas. O texto é muito agradável. Repleto de bom-humor e auto crítica, recorta um momento da vida do ator Steve Martin, precisamente a época que vai de sua estréia nos palcos como comediante, passando pelos anos em que se dedicou a aprimorar seu show até sair dos pequenenos cabarés da costa oeste dos EUA e se transformar num dos mais reconhecidos comediantes americanos. Tudo isso, antes de chegar a Hollywood. Livro de curiosdidade – e talvez útil – a quem se interessa em fazer rir em cima de um palco. 

 

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Um copo de cólera, Raduan Nassar

Algumas pessoas mais próximas conhecem minha dificuldade em “digerir” Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar. Nas duas leituras que fiz do livro, a vertigem, ao invés de me ascender a outro estado, me sufocou impiedosamente. Talvez seja por isso que tanto relutei em atacar de vez esse Copo de cólera. Que me surpreendeu. Que li e reli. Que me transportou para a veia dos desentendimentos amorosos brilhantemente transpostos em literatura. Excelente. Quem sabe um dia o Lavoura também se transforme diante de meus olhos.

 

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Fragments d’un discours amoureux, Roland Barthes

Li, e continuo lendo em francês e desordenadamente Os Fragmentos de um discurso amoroso. Li boa parte do livro ao mesmo tempo em que lia o Copo de cólera, de Raduan Nassar. Interessantíssima a complementaridade que se estabeleceu em meu espírito entre essas duas obras dos anos 70. Não encontro nada muito visível, evidente a se descrever, sobre o semelhante impacto que ainda agora me causam. Mas o projeto de Barthes (austero?) com seu límpido rigor, sua “anti-trama” tem a capacidade de me arrastar para dentro de suas páginas com a mesma sede de quem mergulha num livro policial. “E agora, o que é que vem?” é a pergunta que dá o tom da leitura… pelo menos da minha.

 

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História do pranto, Alan Pauls

Como evoca Ricardo Piglia na contra-capa do livro, a prosa de Pauls tem estilo e se situa a anos-luz da “prosa jornalística”. É verdade, mas não é isso o que garante a qualidade do livro. Por vezes mergulhei em suas linhas e me deixei flutuar agradavelmente pela correnteza de suas frases. Outras, beirei o afogamento a espera de uma salvadora lufada de oxigênio que tardava em chegar. Entre minha bóia e meu naufrágio, o jovem herói desenrolava sua insuspeita trama.

 

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Lettres Philosophiques, Voltaire

No Brasil, o título desses textos é Cartas Inglesas. É que em sua maior parte tratam dos costumes, hábitos, arte, religião, economia, ciência praticados na Inglaterra. Com sua fluidez perspicaz, irônica às vezes, Voltaire não hesita em colocar lado a lado franceses e ingleses em suas considerações; não hesita em dirigir aos britânicos uma estima, muitas vezes, maior do que a dirigida a seus conterrâneos. Uma última carta é dedicada aos Pensamentos de Pascal. Voltaire destrincha e analisa os fragmentos cujas idéias, segundo ele, merecem ser combatidas. A certa altura temos Voltaire comentando o fragmento que Pascal teceu sobre Montaigne; três pensadores em três séculos diferentes, formando alguns dos mais sólidos pilares da cultura francesa dos últimos 500 anos.

 

O medo do goleiro diante do pênalti, Peter Handke

Esse, e os dois outros livros abaixo, foram lidos em francês, embora tenham sido escritos por autores de outras línguas. É que na Livraria Francesa, em São Paulo, havia uma promoção: três livros de bolso por dez reais. E esses estavam entre os livros em liquidação. Quantos livros brasileiros consigo comprar com dez reais? Enfim… Mas talvez a história desse livrinho seja mais conhecida pela adaptação cinematográfica que Wim Wenders fez dela nos anos 70. A história, bem, como explicar… ela é o antípoda do que se pode esperar de uma narrativa clássica. Nela, o personagem Bloch parece viver todos os episódios do livro de maneira absolutamente gratuita. Um assassinato ou um trajeto de ônibus parecem ter o mesmo peso. Tudo o que é descrito, todo e qualquer detalhe, parece não ter a menor incidência no desenrolar da trama, e talvez por isso mesmo acabem engendrando algum sentido. Sublinhei a seguinte frase, perdida no meio do relato: “Quando ele se sentou, ele fixou os olhos do motorista no retrovisor, sem que isso tenha um significado.” Ela me parece bastante representativa do tom e do teor geral da obra, uma obra, vale dizer, que pode tanto nos englobar com certo agrado em seu quase absurdo como pode nos encher de decepção e nos expelir para bem longe, mas bem longe mesmo, de seu interesse.

 

Satori à Paris, Jack Kerouac

Gostei desse livrinho. Capítulos muito curtos sobre os dez dias em que o autor passou na França em busca da origem de seu nome bretão e de seus antepassados. Tudo regado a uma boa dose de cognac logo pela manhã. Mas apesar disso (ou justamente por isso) a escrita é dinâmica, sonora (mesmo pelo que pude perceber na tradução francesa) e assaz surpreendente nas imagens e nos encontros descritos. Gostei desse livrinho.

 

Jours tranquilles à Clichy, Henry Miller

Bom, não gosto! E, assim como no comentário acima, o que dizer além de um mero não gosto? Não sei ao certo. O tema… bom o tema sempre pode ser interessante, mas a maneira espichada como é tratado me aborrece profundamente. É uma pena, porque começou interessante e cheio de atrativos. Depois cai na rotina do personagem e suas aventuras com as prostitutas parisienses da década de 30, e sua cumplicidade na pobreza e na “sacanagem” com seu amigo Carl… Um episódio mais enfadonho do que o outro. Não pelo que retrata, repito, mas como o retrata. Pelo menos é essa a impressão que tive dessa tradução francesa. Claude Chabrol fez dessa história um filme, em 1990, que não conheço.

 

Maximes, La Rochefoucauld

Já havia lido parte das Máximas de La Rochefoucauld no tempo da faculdade. Agora li todas as 504 máximas da edição de 1678. Um deleite só. Aí vai um exemplo em uma tradução (apressada) minha: “O ciúme se alimenta na dúvida, e se torna fúria, ou finda, assim que se passa da dúvida à certeza.” E mais um: “Se existem homens nos quais o ridículo nunca apareceu, é que não procuramos direito.” E para terminar: “Para se estabelecer nesse mundo, faz-se o que se pode para se parecer estabelecido.”

 

Un vrai roman – mémoires, Philippe Sollers

Percurso literário e pessoal desse consagrado e polêmico autor francês. A escrita desenvolta é um dos grandes atrativos desse livro de memórias. As insinuações “libertinas” têm lá seu charme e as as “fofocas” disfarçadas de anedotas não chegam a incomodar (se você não for o alvo delas, é claro). Vale por fornecer um ponto de vista (controverso, é verdade) do meio literário, com seus méritos e caprichos, na França dos últimos 50 anos.

 

La littérature érotique ou l’écriture du plaisir, Frank Évrard

Livrinho da coleção Les Essentiels Milan.
Correto no que diz respeito ao panorama da literatura erótica no ocidente. Mas é mais um daqueles textos onde o autor troca os pés pelas mãos ao tentar definir os padrões que separam o erotismo da pornografia. Évrard, num único e rápido momento, lembra que tal distinção, na maioria das vezes, é decorrência de preconceitos morais e religiosos de uma determinada época e cultura; lembra que o que foi considerado imoral e licencioso ontem já não o é mais hoje. Mas na página seguinte, o autor parece esquecer-se de tal observação, e, na maior parte do livro, acaba separando uma obra “pornográfica” de uma “erótica”, sem sabermos claramente qual o critério para tal separação, muito provavelmente porque esse critério é sempre nulo ou falso.

 

Histoire de l’oeil, Georges Bataille

Escrita, por vezes delirante, sobre as aventuras e experiências sexuais de um jovem de 16 anos. Os personagens de Bataille tocam e ultrapassam o limite da maldade, mas as descrições das cenas, para mim, tornam-se rapidamente enfadonhas e desprovidas de interesse. Uma exceção é o capítulo “La confession de Simone et la messe de Sir Edmond” (A confissão de Simone e a missa de Sir Edmond), onde a personagem de Simone, depois de ter “revolucionado” sexualmente a vida de um casto vigário, ouve o seguinte comentário: “Esta hóstia que você vê é o esperma do Cristo em forma de bolachinha”.

 

La Philosophie dans le boudoir, Sade

Decidi ler a Filosofia da alvova, do Marquês de Sade, com seus sete diálogos, em sua versão francesa. A história se resume em “lições morais e sexuais” que a jovem Eugenie recebe de Madame Saint-Ange e de seus convidados. A imaginação das cenas e a crueldade nelas injetada desenvolvem-se num excitante crescendo. Por outro lado, a filosofia defendida pelos personagens, transgressora de todos os tabus, apóia-se freqüentemente em argumentos um tanto quanto frágeis e contraditórios, divertido às vezes, mas distante da perturbação instigante das cenas eróticas.

 

Tous les matins du monde, Pascal Quignard

O livro relata, com linguagem límpida, um pedaço da história do músico Sainte-Colombe e sua relação (ou recusa de relação) com a vida mundana da corte francesa do século XVII. Tous les matins du monde virou filme cujo roteiro é de autoria do próprio Pascal Quignard.

 

Ces maladies mentales nommées folie, Eveyne Caralp

O interesse do livrinho, e provavelmente o único, é conhecer a categorização dos chamados “Transtornos Mentais” feito pelas versões do DSM (Diagnostical and Statistical Manual of Mental Disorders). Tal categorização, aparentemente controversa, não é suficientemente discutida no texto. Além disso, a exacerbada utilização de termos técnicos (nada contra eles, pelo contrário) fora de propósito apenas pesam a leitura.

 

A irrecusável busca de sentido, Scarlett Marton

Excelente relato do percurso intelectual e pessoal da autora. Escrita sensível, crítica e generosa de Scarlett, minha professora de Filosofia na USP, no início dos anos 90, responsável por apresentar-me Pascal, La Rochefoucauld, La Bruyère e Nietzsche. 

 

L’existentialisme est un humanisme, Jean-Paul Sartre

Uma visita, dessa vez em francês, a esse texto de Sartre, 18 anos depois de tê-lo lido pela primeira vez, em português, na Faculdade de Filosofia da USP. É sempre interessante, para quem se debruça sobre as questões da “liberdade” e do “sujeito” dar uma passeada pelo “projeto” de Sartre.

 

La chambre rouge, Nicolas Bouvier.

Um texto curto sobre as mudanças físicas e emocionais ocorridas nesse quarto utilizado durante quarenta e dois anos pelo escritor de “L’usage du monde”. Completa o pequeno volume uma emocionante homenagem ao poeta Vládimir Holan.

 

 Le goût du voyage, Vários autores

Um livrinho da Coleção “Le goût de…”, da Mercure de France, com trechos de obras de vários escritores-viajantes contemporâneos e de outras épocas. Viagens de todo tipo: longas, curtas, perigosas, tediosas, pela imensidão do mundo, pela imensidão do bairro… Tenho uma predileção pelos textos de Gilles Lapouge, Nicolas Bouvier e Valéry Larbaud.

 

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A metamorfose, Franz Kafka

Decidi reler a novela de Kafka em nova tradução, passei numa banca e comprei essa edição de bolso, com preço atraente. O que perturba a leitura é justamente a ‘boa intençào’ do tradutor e sua quantidade de notas explicando – mastigando – o que o texto já ‘explica’. 

 

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Histoires Vraies, Sophie Calle

Interessante o que aconteceu com esse livrinho: me chamou a atenção na livraria e depois ficou esquecido um tempo. Recentemente voltei a ele e… sim, gosto da simplicidade, do humor e da ‘intimidade’ das fotos e dos textos. 

 

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Écrire, Marguerite Duras

No primeiro texto, que dá nome ao volume, M. Duras toca em aspectos íntimos de sua escrita e de sua vida ligada à literatura… os outros, que completam o volume [a história de um aviador morto na segunda guerra, e um ‘roteiro’ de filme] me tocaram muito menos, ou nada.

  

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L’art du roman, Milan Kundera

Não espere de A arte do romance um manual de análise ou técnicas de escrita. Milan Kundera trata mais de conceitos que o interessam em seus predecessores preferidos [Kafka, Diderot etc], e outros conceitos que passeiam por sua própria obra. Algumas vezes muito interessante… outras menos.

 

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32 Histoires, Adrien Tomine

O interesse dessa retrospectiva dos primeiros comics, publicados em fanzines caseiros, do americano Adrien Tomine,  está em poder acompanhar a evolução de seus traços e roteiros… alguns realmente bons, mas longe do ‘genial‘ com o qual foi qualificado pelo vendedor que me aconselhou o livro.  

 

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Le journal de mon père, Jirô Taniguchi

 História em quadrinhos desse intimista autor japonês herdeiro dos Mangas. Um relato convincente e muito emocionante sobre a relação de um filho com o seu pai… tudo contado em flash-back, a partir do velório do pai.  Excelente.

 

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L’art de la ponctuation, O. Houdart e S. Prioul

Mais do que uma coleção de regras de gramática, esse livrinho traz um panorama das inovações criadas por tipógrafos e editores ao longo dos séculos, além, é claro, de exemplos de como alguns dos mais conhecidos autores da língua francesa deram rítmo e volume às suas frases a partir da orquestração desses pequenos sinais tipográficos… um prazer de leitura. 

 

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 Bonsái, Alejandro Zambra

Uma história curta estruturada em um esqueleto de romance. Tudo é “reduzido”, “não desenvolvido”, como uma miniatura, como um Bonsái. Interessante trama do jovem autor chileno.

 

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Le mythe de sisyphe, Albert Camus

O mito de Sísifo é outro livrinho que, dependendo da época, gosto de me redebruçar sobre alguns de seus trechos. Um ensaio clarividente sobre o sentimento do absurdo representado pelo divórcio entre o homem e sua vida.

 

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De l’inconvénient d’être né, Cioran

Uma maravilha! “Da inconveniência de ter nascido.” Durante meses não saía do meu bolso. Lúcidos aforismos de um humor [sim, humor, para mim] desconcertante banhando a escuridão de uma existência “pessimista”. Volto sempre para me revigorar com uma ou duas folheadas.

 

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Terceiro livro de crónicas, António Lobo Antunes

Textos curtos sobre Benfica, livros, família, viagens e todo tema que A.L.A.  se atreve encarar, em geral conduzidos com uma sensibilidade e emoção que me agradam demais.

 

– 2007 –

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À sombra das chuteiras imortais, Nelson Rodrigues

Sou fã de carteirinha dos textos que Nelson Rodrigues escreveu para o jornal. De textos desse volume, Isabelle Elizéon e eu tiramos a inspiração para a criação de “Fair-play”, espetáculo realizado na França em 2002. Volta e meia volto ao Nelson. Fundamental!

 

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Nove Contos, J.D. Salinger

Por enquanto, li apenas “Um dia ideal para o Peixe-Banana”: repleto de imagens suscitadas pela agilidade do diálogo, cortes, e pelo crescendo bem dosado até o desenlace. Quero ler os outros. 

 

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Récits 1971 – 1982, Thomas Bernhard

Um volume em francês reunindo 11 títulos de Thomas Bernhard, entre eles os cinco romances daquele que é chamado de ciclo “autobiográfico”. Um deleite para quem aprecia o estilo e as obsessões do autor: decadência da sociedade austríaca, o suicídio, a doença… e a vontade de viver.

 

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 Extinção, Thomas Bernhard

Uma prosa veloz em plena artilharia contra a família e tudo o que ela causa. Uma bomba muito atraente, típica do escritor austríaco. 

 

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Cal, José Luís Peixoto

Uma coletânea de contos cujo o tema central é a velhice, escritos por um jovem autor português.

 

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La folie, Roland Jaccard

Uma abordagem psiquiátrica, mas também sociológica, etnológica e filosófica da loucura.  As primeiras linhas já dão o tom: “ceder à facinação pela sedução estética da loucura, é desconhecer o que na loucura é abolido”. Excelente introdução ao tema.

 

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Le rire, Henri Bergson

Le rire [O riso] é um livrinho que me acompanha sempre. Suas palavras não deixam de ecoar em minhas interrogações profissionais e… existenciais; as palavras seguintes são um exemplo disso: “ao mesmo tempo em que quis determinar os processos de fabricação do riso, eu procurei qual é a intenção da sociedade quando ela ri”

 

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 Story, Robert McKee

Um livrão cheio de gráficos e esquemas nem sempre interessantes, mas muito sólido nas análises e comentários de roteiros de filmes.  Pode interessar aqueles que, como eu, vivem constantemente às voltas com questões de construções narrativas e dramatúrgicas.

 

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A Faculdade e meu itinerário constitucional, José Afonso da Silva

Para quem quer conhecer a história da faculdade de direito, da USP, no Largo São Franciso, relembrar o contexto social e político do período entre-ditaduras no Brasil do século XX, e acompanhar as vicissitudes da trajetória desse autor – que também é meu pai. 

 

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 Rester Vivant, Michel Houellebecq

Uma série de textos curtos publicados anos antes de seus romances mais conhecidos [Extensão do domínio da luta, Partículas Elementares e Plataforma]. O texto que dá nome ao volume aparece em três partes, e são os mais interessantes. Os outros… hmm… curiosos.

 

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O eterno marido, Fiódor Dostoièvski

Depois de bem situar os papéis e as funções de Páviel Pávlovitch, o marido, e de Vieltchâninov, o amante, a tensão amarga e risível de seus encontros são o pula-pula feliz da narrativa de Dostoièvski nesse pequeno [em volume de páginas] romance que, não sei por qual razão, li em tempos diferentes.

 

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Água viva, Clarice Lispector

Demorei para atacar, mas quando resolvi foi um deleite. Acabei por consumi-lo em doses homeopáticas para mergulhar no fluxo da lúcida prosa – mais poética do que nunca – de uma narradora que decide que “escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra”.

 

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Hotel Atlântico, João Gilberto Noll

Uma narrativa acurada que desliza sobre os desvios de uma estrada que vai do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul; um personagem principal e situações estranhamente convincentes que me agarraram desde o início para só me soltaram muito depois de ter acabado o livro. Muito bom. Li numa tacada só, coincidentemente em um quarto de hotel.

 

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O mandarim, Eça de Queiroz

Que excelente supresa esse volume antigo e empoeirado encontrado na biblioteca de meu pai, sobretudo para mim, que tinha uma lembrança distante do Eça do Basílio e do Padre Amaro. O mandarim muda o tiro de direção: um fundo de preceitos morais numa narrativa que nasce do fantástico e nos inunda de humor.

 

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Galvez Imperador do Acre, Márcio Souza

Humor e delírio nesses fragmentos do diário daquele personagem que, no auge do ciclo da borracha, comandou um exército de bêbados, traidores e vedetes francesas para instalar seu trono no umbigo da floresta.

 

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O equilibrista do arame farpado, Flávio Moreira da Costa

Uma diversidade atraente de estilos costurados com ousadia para contar a história [um tanto quanto autobiográfica?] do farsesco Capitão Poeira.

 

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Na praia, Ian McEwan

Excelente. Um dos livros contemporâneos mais admiráveis que li nos últimos tempos. Uma construção finíssima, um impacto poderoso nessa história de um jovem casal em lua-de-mel na praia de Chesil, na Inglaterra dos anos 60.

 

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Cartas a um jovem escritor, Mario Vargas Llosa

Muito mais do que um manual, nesse livro Mário Vargas Llosa foge da absurda posição de mero conselheiro para expor sua visão da construção literária.

 

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Memória de elefante, António Lobo Antunes

Uma paulada de bom. Um dia na vida de um personagem, um médico passado dos trinta anos, recém-divorciado, duas filhas, e muita angústia. História entrecortada por lembranças de felicidades e tropeços contada através de uma narrativa refinada no redemoinho de um bruto lirismo.

 

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L’Africain, J.M.G. Le Clézio

Pequeno volume autobiográfico sobre o período em que o autor viveu na África com sua família. Um acerto de contas sentimental com a figura do pai. Um extremo cuidado na limpidez da frase para fazer reverberar a emoção e o questionamento do adulto que se vê criança. Bastante tocante.

 

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O púcaro búlgaro, Campos de Carvalho

Um personagem que nos leva pelo caminho absurdo de sua pesquisa sobre um púcaro búlgaro. Hilário em seus primeiros capítulos. Confesso que me senti um tanto afogado pelo nonsense que domina o livro em sua parte final.

 

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Duas narrativas fantásticas, Fiódor Dostoiévski

Duas histórias publicadas no jornal que o escritor russo editava no século XIX. Minha preferida das duas é a primeira, “A dócil”, uma daquelas histórias que te pegam e não te permitem escapar antes que o autor te imponha seu desenlace. Além disso, a edição da Editora 34 traz uma tradução cuidadosa que deve agradar aos estudiosos e aos leitores como eu, comuns.

 

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A musa diluída, Henrique Rodrigues

Uma coletânea madura de poesias “tão singular e tão plural, feito um cardume”, para utilizar um verso do poeta.

 

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Histórias Prováveis, Marco Aurélio Cremasco

Desse livro ressalto a novela “Da importância de ser Oscar”, um encontro inusitado, bem escrito e convincente entre o narrador e Oscar Wilde numa livraria de Indiana, EUA.

 

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Somos todos iguais nesta noite, Marcelo Moutinho

Tenho uma queda por “Fogos”, que é encantador e surpreendente, mas fiquei muito bem impressionadado com a totalidade dos contos.

 

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Casa entre vértebras, Wesley Peres

Sobre essa bela escrita já disse e repito, mesmo se pareça ridículo: o livro soa como um único bordão de cítara cujos harmônicos corresponderiam à nuance rica dos fragmentos dessa prosa extremamente poética de Wesley Peres.

 

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Variations Scatologiques – pour une poétique des entrailles, Bob O’neil

Excelente volume que recolhe exemplos na literatura e na sociedade sobre as diferentes percepções e tabus que nos ligam às entranhas de nosso corpo.

 

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Animal Agonizante, Philip Roth

Humm… Um professor lembra seu relacionamento amoroso com uma aluna. O mote pode ser potente, mas o desenvolvimento da história me deixou mais frustrado do que satisfeito.

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2 Respostas to “O que ando lendo”

  1. Roberto Amaral Says:

    Ei Nereu, fôlego de felino, heim? Parabéns! PALÁVORAZ tem o que falar.

    Grande abraço,

    Roberto Amaral

  2. cristiane73 Says:

    Ainda não encontrei a palavra que melhor classifica o fato de ver uma pessoa “pelo lado de fora”, e depois dar de cara com tudo ou quase tudo o que lhe vai por dentro, sem nunca termos trocado uma palavra.
    É assim que é a vida moderna, não ? Não precisamos mais trocar olhares, depois de um tempo começar a trocar algumas palavras, quase sempre tolas e cheias de timidez, para aos poucos irmos nos acostumando com a presença do outro até esta tornar-se indispensável…
    Nesse mundo moderno o que menos necessitamos é aproximação. Será que colocarmos nossa vida na internet, à disposição de quem quiser conhecê-la, é um jeito de dizer: “Aqui está tudo o q vc pode saber sobre mim. Agora afaste-se” ? Ou será q é um jeito de dizer: “Este sou eu. Se não gosta, afaste-se. Por que eu não quero correr o risco de pensar em mudar pra agradar alguém” ?
    Vi você ontem. Gostei do que vi. Hoje encontrei seu blog e conheci um pouco mais. Gostei do que li. Senti como se pudéssemos sentar e conversar por horas. Fiquei curiosa.
    Mas, esse é mais um truque da internet: nos fazer sentir íntimos de quem sequer sabe de nossa existência.
    05/10/09

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