O que falo pros outros

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A história abaixo apareceu pela primeira vez na revista Histórias Possíveis, em dezembro de 2007

DESAPARECIDO

Há, eu garanto, um forte desejo que brota pelo menos uma vez na existência de qualquer ser humano saudável: o desejo de desaparecer do mapa.
Em geral, as razões que regem o nascimento de tal desejo se parecem. O sentimento inexorável de que se vive uma vida completamente estragada é uma delas.
Eu sou daqueles que sentem isso. Três da tarde em casa: não faço nada, é verdade. Apenas vejo as horas passarem fraquinhas, incapazes de me preencherem. Para ser exato, confesso que às vezes me levanto para tomar um copo de leite frio, e só. O incrível é que aos 15 anos já entendera tudo isso; entendera também que os anos seguintes [22 já se passaram] não seriam nada além de uma desnecessária e maçante reprise. Mas…
É que tenho outra coisa para confessar.
É bem provável que a ansiedade, a maldita ansiedade que me prostra perplexo diante de toda escolha, tenha retardado minha decisão de desaparecer. Ser ou não ser? – é tão difícil a serenidade!
O máximo que consegui, nos dias bons, foi sorrir de minha hesitação em saber se, no meu caso, o maior castigo é morrer ou ter nascido – fato que certamente pouco deve lhes importar.
Concordo que o silêncio nos aproximaria mais: “a aparente não-comunicação de nossas presenças mudas”.

Vou beber mais leite, já volto.

Voltei [revigorado, eu, el grande ator sem palco].
Em algum momento houve – sempre há! – um divórcio qualquer. Com isso vocês concordam?
Por essas e outras razões multiplicadas por mil, deixei de vez de esperar. Agora estou seguro, infelizmente seguro de que de uns anos para cá a vida, ou aquilo que por preguiça ou imprecisão resolvi chamar de vida, soçobrou minha confiança nas coisas boas.
Fiquei com problemas ditos de saúde que me obrigam – me obrigariam, porque nunca tomei – a tomar remédios.
Adoraria avançar assim mesmo, mas no meu caso não é possível. A noção de avançar minguou tanto de minha fé que um dia, lá atrás, cuspida e destroçada, desencarnara de mim para um daqueles longínquos para sempre.
Cancelado eu já era, agora retiro-me [desfamiliarizei-me com meu mundo, já deu para perceber].
Com sua licença.
Deixo, para quem quiser, um copo de leite pela metade e, nos desaparecidos do jornal de amanhã, os 37 anos, 78 quilos, 1.80m, cabelos negros e olhos castanhos-vazios de um homem que não acharão mais, nunca mais.

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***

 

Escrevi o texto abaixo na coluna Gargântua para a revista Ruído Branco # 9 [set 2007]

Leque de Claudel

 


Tradução e apresentação:Nereu Afonso da Silva

 

 

 

Os dois poemas acima e outros noventa e oito formam as Cem frases para leques do poeta e dramaturgo francês Paul Claudel. Criados entre 1926 e 1927, durante missão diplomática do autor no Japão, foram originalmente caligrafados pelo poeta, litografados em acordeões de papel desdobráveis da direita para a esquerda, segundo a maneira oriental, e acompanhados de ideogramas traçados por Ikuma Arishima em suas limitadas e luxuosas edições japonesas. Em 1942, seu primeiro empobrecimento: a edição francesa, ao reduzir a obra ao espaço convencional do livro, priva nosso espírito, nossos olhos e nossas mãos do contato com o objeto precioso e nos obriga a aceitar tão-somente sua dimensão lingüística. De desfrutadores de folhas de leques pinçadas fortuitamente passamos a leitores de páginas sequencialmente encadernadas em livro. São essas, dirão alguns, as conseqüências inevitáveis da realidade técnica exigida pela necessidade de divulgação da obra a um largo público. Mas apesar disso, algum deleite pode ainda ser resgatado nas modernas edições francesas de Cem frases para leque [incluindo a edição de bolso da Gallimard], pois, em vez de optarem pela transcrição mecânica e tipográfica dos poemas, elas mantiveram em suas páginas as reproduções manuscritas dos versos de Claudel.

Nessas páginas, além da atração pela brevidade do haicai [Claudel, como se vê, não pratica a difundida forma dos três versos de 5/7/5 sílabas], percebe-se, através de sua caligrafia, através da energia ou timidez da mão no pincel, do traço firme ou hesitante, da maior ou menor quantidade de tinta embebida pela folha, do espaçamento escolhido ou escolhendo-se, da vibração imposta a ou proposta por certas letras, sílabas e palavras, enfim, percebe-se por toda a dinâmica dos elementos presentes no fluxo criativo que vai do espírito ao papel, passando pela mão, pincel e tinta ou, se preferirem, do papel ao espírito, passando pela tinta pincel e mão, o gesto justo, fonético, sonoro, colorido e sugestivo do poeta.

 

Para apresentar uma pequena seleção desses poemas em nossa língua – e em versão virtual – sem supervalorizar o hiato que pode existir entre as impressões dos espectadores das primeiras edições japonesas de Cem frases para leques e as impressões que terão seus leitores brasileiros de hoje, decidimos apresentá-los conjuminados com a reprodução caligrafada da edição francesa de 1942. Dessa maneira, espera-se que aqueles que se encontram face a face com esses versos traduzidos possam, pacientemente, aclimatar-se a seu ‘novo feitio’ e, quem sabe, transformarem-se em seus co-produtores ao cotejá-los com os originais, ao sentirem no ‘s’ isolado de ‘incenso’ o cheiro de sua fumaça, ao deixarem-se impregnar pela dinâmica gesto-palavra claudeliana, tão propulsora, a meu ver, de uma nova expressão de sentido.

 

 

 

 

 

 

 

Escrevi o texto abaixo sobre o acidente radioativo com o Césio 137, em Goiânia, em há 20 anos, no coluna Gargântua da revista Ruído Branco # 8 [ago 2007]

Crônica de ferro e raio

I. 

Jean Rouch, documentarista e etnógrafo francês, contou que diante de um suspeito pedação de ferro, as pessoas foram se amontoando e eram mais de três; chegaram intrigados, coçando o queixo, homens e mulheres com uma espécie de intuição lhes assegurando que a partir daquela máquina de metal atingiriam os mortos. E, em certo sentido, era isso mesmo… Faltava-lhes somente o especialista, aquele que abriria o ferro, que extrairia da estranha máquina o mistério. Então foi assim: durante toda a preparação não deram sequer um ai, estatelaram-se ali, olhos voltados para o centro do metal, ignorando gentilmente a surpresa pairando perto. O especialista chegou. E realmente houve uma surpresa: de repente o feixe, e em seguida todo aquele “ô”, em coro. Nunca tinham visto nada que se assemelhasse a tal coisa. Do nada, a máquina escancarada e do seu avesso, mais precisamente do osso do avesso, expandia-se um raio azul de dentro para fora do metal. De início, bem no início da emanação, aqueles homens e mulheres não sabiam para onde olhar, mas muito rápido, menos de vinte segundos depois, estavam todos voltados para o lugar certo, para aquele ponto fixo e delirante que lhes invadia as retinas: a tribo toda seguindo o brilho azul que saía do ferro e terminava impactante na mansa lona sustentada por dois galhos da maior árvore da aldeia. Aprenderam que tal tecido se chamava tela e que o pedação de ferro se chamava projetor e que entre os dois equilibrava-se e repousava a imagem do filme, o documentário que o próprio Jean Rouch filmara anos antes e que agora trazia de volta revelado, revelando seus protagonistas, azul do rio, hipopótamos, homens e mulheres dançando, cantando e caçando, muitos deles desaparecidos para sempre. Os espectadores choraram seus mortos e, ao mesmo tempo, segundo Rouch, compreenderam de imediato as sutilezas dos cortes, planos, zooms, degustando pela primeira vez, lágrimas nos olhos e também sorrisos, o prazer da experiência cinematográfica. E isso aconteceu à margem do rio Níger… Muito, muito longe de Goiânia.

 

II.

Mas um dia inventaram outra história, da qual tenho apenas uma parca e rara imagem vinda de televisor, a antena em “v”, uns chuviscos intermitentes, sempre os mesmos e mais quase nada, numa tela de Jornal Nacional com aquela voz — e isso eu invento ou lembro? — do Cid Moreira, bem melosa, oito horas, boa noite, terno e gravata, hoje, Goiânia, ao vivo, com locuções, palavras e mais palavras misturando melodrama, ignorância, fim de vida em pele azul, publicidade, e no final, depois da cotação da bolsa e dos gols da rodada, uma derradeira palavra: um outro boa noite, assim, vejam vocês, quase inofensivo, preparando a telenovela e deixando no ar [salve-se quem puder!] aquilo de que ninguém nunca tinha ouvido falar: ç-cé-césio, o quê?

Pelo que contaram, ali também aparecia, no proscênio do tumulto, um pedação de ferro, de novo. Mas dessa vez, gente, longe, bem longe do azul do Níger. E o que poderia ser mais atraente naquele metal de ferro velho do que sua aparente ausência de atração? Resposta: — De novo, o seu avesso, o osso de seu avesso, mas dessa vez, gente, dessa vez

 


 Escrevi o texto e as traduções abaixo como uma contribuição para a revista Ruído Branco #7 [jul 2007]

Michaux

 


Apresentação e tradução: Nereu Afonso da Silva

 


Poteaux d´angle, de Henri Michaux, cuja edição completa é de 1981, é composto de uma série de preceitos, aforismos e outros ‘conselhos meditativos’ destinados a um suposto ‘você’.

Livro tardio, de quando o poeta belga beirava e ultrapassava seus oitenta anos, tem o perfume moralista daquelas máximas que, de Epicuro a Nietzsche [para evocar apenas um pedaço do cenário ocidental], aparecem de tempos em tempos em nossa literatura para complementar, contrariar, fragmentar — e por vezes dinamitar — o que de fixo, austero e uno se pretende impor. Poteaux d’angle ensina [se é que ensina] contra o ensinamento; traz bagunça a certos lugares, sobretudo aos comuns; corre naqueles sulcos de anti-sabedoria que deságuam, vejam vocês, em outra-sabedoria; martela mestres e dispensa discípulos; é escrito com sintaxe iluminada por escritor nunca realizado, nunca estabelecido e nunca claro, porém claro!

 

Os doze fragmentos abaixo traduzidos foram pinçados no volume de bolso de Poteaux d’angle, [Poésie/Gallimard, Paris, 1981].

 

***

O pensamento, antes de ser obra, é trajeto.

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Se você é um homem designado ao fracasso, não fracasse, contudo, de qualquer jeito.

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Não, não, não adquirir. Viajar para se empobrecer. É disso que você precisa.

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Lembre-se: aquele que adquire, a cada vez que adquire, perde.

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Aconteça o que acontecer não embarque nessa — erro supremo —, não se ache mestre, nem mesmo um mestre de más reflexões. Há ainda muita coisa a ser feita, muita, quase tudo. Sua morte colherá um fruto ainda verde.

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Sendo múltiplo, complicado, complexo e, aliás, fugitivo — se você se mostra simples, estará trapaceando, mentindo.

Você é assim.

Faça, ao menos, algum esforço de sinceridade em vez de dissimular-se na moda da época ou em um desses grupos onde, por amizade, ingenuidade ou esperança, a gente se une.

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O estilo, essa comodidade em instalar-se e em instalar o mundo, seria isso o homem?, seria essa aquisição suspeita que elogiamos no escritor que com ela se satisfaz? Seu pretenso dom vai grudar-lhe, esclerosá-lo surdamente. Estilo: (mau) sinal da distância imutável (mas que poderia ter sido, ou deveria ter sido); distância onde equivocadamente ele permanece e mantém-se em face de seu ser, de coisas e de pessoas. Bloqueado! Ele precipitou-se em seu estilo (ou o procurou com afinco). Em troca de uma vida de empréstimo ele abandonou a totalidade, sua possibilidade de mudança, de mutação. Não há do que se orgulhar. Estilo que se tornará falta de coragem, falta de abertura, de reabertura: em resumo, uma enfermidade.

Trate de escapar. Mergulhe suficientemente profundo em você para que seu estilo não possa mais continuar.

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Em um pasto estreito pastavam uma vaca e um cavalo. A comida é a mesma, o lugar é o mesmo, o dono deles é o mesmo, o rapaz que os trará para dentro é o mesmo. Entretanto, a vaca e o cavalo não estão “juntos”. Um come o pasto de um lado, o outro do outro, sem se olhar, movendo-se lentamente, nunca muito próximos e, se isso acontece, eles parecem não perceber.

Nenhum comércioeles não se interessam um pelo outromas também nãoagressão, querela, nem mau humor.

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Mais vale permanecer no horripilante do que cochilar no satisfatório.

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Ele se atrapalha ao dobrar os joelhos, seus passos não são lá tão grandes, mas é ele quem melhor recebe os raios de sol, ele que nunca foi discípulo.

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Não se entregue feito um embrulho amarradinho. Ria com seus gritos; grite com seus risos.

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Aprenda com parcimônia. Uma vida inteira não basta para desaprender…

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