Archive for the Quase Crônicas Category

Antiálbum 3

Posted in Quase Crônicas on janeiro 24, 2009 by Nereu Afonso da Silva

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à meia-noite de um 31 de dezembro,
por motivo de vertigem e inverno,
inapto a iludir-me com a falácia de um ano novo,
virei a noite sozinho num carro estacionado à beira de mais nenhuma estrada

 

 

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O soco

Posted in Quase Crônicas on setembro 16, 2008 by Nereu Afonso da Silva

Há três horas levei um baita soco!
Mais do que descrevê-lo, mais do que informar-lhes as circunstâncias do ocorrido, mais do que suscitar-lhes a piedade, o ódio ou a indiferença, eu queria – se fosse capaz – apenas identificar a estrutura molecular do sentimento que, depois do golpe, me abrangeu.
Dizer que é um sentimento que me pôs por terra não garante coisa alguma. Poderia recorrer ao Houaiss, onde uma quantidade de termos mais ou menos sofridos e mórbidos, um mais oco do que o outro, apresentam-se à minha mudez.
Digo mudez porque, no meu caso, a fraqueza na voz é o primeiro sintoma que aparece quando beijo a lona. O chão duro, o fundo do poço (ou, se preferirem, a falência completa da felicidade) não são lá muito fecundos em ecoar sons congruentes, vocês não concordam?
O fato é que foi um belo baque.
Um impacto que há três horas me deixa assim: balbuciando e acreditando que na inconstância, na improdutividade, na incoerência do balbuciar reside alguma solução.
Vai saber!
Mas o que eu queria mesmo, eu repito, era tão-somente identificar a estrutura molecular do sentimento revelado pelo soco. Não para desenhar o sentimento. Não para traduzi-lo. Não para transportá-lo envernizado ou transfigurado a vossos olhos nestas linhas. Nada disso. Mas apenas para quebrá-lo em sua raiz, alterar-lhe a direção, enganá-lo, destruí-lo e simplesmente ter a esperança de livrar-me de vez do que nele ainda me transborda.

Nereu Afonso da Silva

… se fosse possível

Posted in Quase Crônicas on junho 29, 2008 by Nereu Afonso da Silva

… se fosse possível atingir o alvo em cheio e responder de uma vez por todas à questão como manter-se crédulo diante de tamanha falta de sentido?, o mundo certamente não precisaria mais de papel, tinta e literatura; mas como, no melhor dos casos, nossa existência precária e fugaz nos permite apenas uma breve aproximação da mira, poetas e filósofos continuam e continuarão – feito flechas – a voar incongruentes pelo céu escuro; e alguns deles (Nicolas Bouvier, Scarlett Marton…), impregnados até os dentes pelo fracasso em tocar o alvo ou pelo afã da superação de sua pontaria, caminham e caminharão até nós, balbuciando ou perplexos, para nos oferecer, extraídas de suas insuficiências, as mais certeiras expressões dessa nossa eterna limitação humana…

Auto-retrato

Posted in Quase Crônicas on setembro 10, 2007 by Nereu Afonso da Silva

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com nunca ninguém por perto, nunca um banal alguém com quem comentar que não havia ninguém por perto, inventei um momento de menos desdita, daqueles que serão [e realmente foram] astuciosamente lembrados no futuro como “a época em que andava de cabeça erguida”, e tentei entrever alguém nesse auto-retrato

Faz vinte anos…

Posted in Quase Crônicas on agosto 19, 2007 by Nereu Afonso da Silva

II.
Mas um dia inventaram outra história, da qual tenho apenas uma parca e rara imagem vinda de televisor, a antena em “v”, uns chuviscos intermitentes, sempre os mesmos e mais quase nada, numa tela de Jornal Nacional com aquela voz – e isso eu invento ou lembro? – do Cid Moreira, bem melosa, oito horas, boa noite, terno e gravata, hoje, Goiânia, ao vivo, com locuções, palavras e mais palavras misturando melodrama, ignorância, fim de vida em pele azul, publicidade e, no final, depois da cotação da bolsa e dos gols da rodada, uma derradeira palavra: um outro boa noite, assim, vejam vocês, quase inofensivo, preparando a telenovela e deixando no ar [salve-se quem puder!] aquilo de que ninguém nunca tinha ouvido falar: ç-cé-césio, o quê?

Resumo 2

Posted in Quase Crônicas on julho 16, 2007 by Nereu Afonso da Silva

Cheguei ao Rio pela segunda vez na madrugada do dia 3 de julho, isso, de 2007. A primeira vez tinha sido há vinte e sete anos atrás, um baita tempo para uma distância nem tão longa assim. Na primeira fomos no Opala vinho pelo asfalto, Itatiaia, Dutra, calçada de Ipanema, Maracanã, cinco dias só, a caminho de Minas: BH e Sete Lagoas [meu dente quebrado vem até hoje dali]; depois foi poeira, boi, boi, boi até chegar em Buritizal, le village de mon père, ali, onde destino virava origem.
Depois, nunca mais.
Até que veio a semana passada e minha segunda chegada no Rio num teco-teco-tam, Paris-Rio. É que nos últimos anos a distância aumentou: agora são onze horas inquietas que me suspendem, homem descolado, ou apenas deslocando-se?, sem terra sua, será? [pergunta besta!], enfim, para vir de casa para o país.
O fato é que me instalaram em Copacabana cheio de fuso-horário no corpo. Mas não dormi na hora. Fui à praia, telefonei, depois, sim, dormi, levantei e cheguei de táxi no Flamengo. Aí começou o resumo 2 que prometi no post anterior. Estava no Rio para receber o Prêmio Sesc de Literatura vencido pelo meu Correio Litorâneo, na categoria contos. A cerimônia seria logo mais, à noite, na Academia Brasileira de Letras. Mas meu resumo começa à tarde, no seminário sobre literatura realizado no Arte Sesc do Flamengo. Até então, só conhecia aquela gente toda por e-mail, livros ou telefone. Rosto mesmo ainda não tinha visto o de ninguém, nem por foto [só o do Wesley Peres, que é muito mais alto fora das fotos, e que é o vencedor do prêmio na categoria romance com seu Casa entre vértebras]. Nem meu próprio livro eu tinha visto. Estava lá embaixo, cigarrinho enrolado, aceso, zonzo, perguntando-me: será que esse é fulano e aquela sicrana? Foi quando passou um rapaz segurando o Correio na mão, um susto! Por favor, você é da organização? Não!, respondeu-me breve e amavelmente. E desapareceu com meu Correio, agora dele, lá para dentro. Era o Marcelo Moutinho, um dos convidados a discutir e debater o conto brasileiro contemporâneo na mesa organizada para os técnicos regionais do Sesc. Revi Marcelo depois, em Parati, onde papeamos até muito tarde e de onde saí com seu Somos todos iguais nesta noite, excelente livro de contos. Mas quem vi primeiro mesmo e fiz a associação nome-rosto-voz-generosidade foi a Maria José Duarte, do Sesc Nacional. Fez boa viagem? Fiz, obrigado. Nossa, Nereu, você parece mais jovem do que eu imaginava… olha, deixa eu te apresentar, esse é o, essa é a.
E sucederam-se na lista André de Leones, Lúcia Bettencourt [vencedores do mesmo prêmio no ano passado e que nos acolherem, Wesley e eu, como se fôssemos uma espécie de primos que acabaram de descobrir a existência, mas que já eram família íntima], em seguida veio Henrique Rodrigues, também do Sesc Nacional, profissional ponta firmíssima desde o começo. Ao lado da Zezé, do Sesc, e do Flávio Izhaki, da Record, foi impecável comigo e com meu Correio. Henrique, além de poeta, também é portador de uma respeitosa e agradável insolência, ligeiramente visível, e deliciosa para aqueles que o rodearam nas discussões inflamadas da – e sobre a – Flip.
Depois fui apresentado à ala paulista: Nurimar Falci e Regina Siqueira, descontração, sim, e, sei lá se por protocolo ou reputação, organização impecável também. Fácil, fácil.
Aos poucos, aqueles que aí em cima chamei de ‘aquela gente toda’, foram constituindo-se, agora com carne, osso, olhares cuidadosos e sorrisos singulares; foram revelando-se aos poucos para mim nas conversas amigas que pingaram uma depois da outra, no Flamengo, na Lapa, na areia de Copacabana, nas batidas de chinelo na calçada da avenida Atlântica, na Off-Flip, nas tendas, nos bares e restaurantes em Parati, também nos bares [tem tido muito bar] e no Sesc da Vila Mariana, em São Paulo.
E teve o encontro, as conversas com o Wesley, que até então se restringiam a parcos e-mails. Papo bom, fluido, família adorável, literatura, o tradicional você leu isso você leu aquilo, as inevitáveis diferenças, mas longe da imbecil hostilidade ou do medo complacente que tanto  impede o debate de idéias. Pelo contrário, com o Wesley, prosemeador de primeira, há um saudável riso na discórdia, camaradagem já, cumplicidade sem ensaios, convergências também: vejam o Campos de Carvalho agora descoberto… [Valeu, poeta!, os búlgaros estão sendo lidos e existindo!]
Pois é… É isso o que contava relatar nesse resumo desamarrado. É o que por enquanto tem ficado, mas com chances de mudar, como essa vontadezinha nova surgindo e se impondo, dizendo-me que não é mais possível deixar passar mais de quarto de século sem visitar o Rio e o que lá tem de bom.
Planos, planos…

Resumo 1

Posted in Quase Crônicas on julho 13, 2007 by Nereu Afonso da Silva

Semana passada, antes de chegar ao Rio de Janeiro para viver o que vou contar mais tarde no resumo 2, eu estava em Pleyben, no centro do Finistère, fim-da-terra da Bretanha, muito próximo daquele canto da França onde Asterix e sua patota plantaram sua aldeia. Um verão dos piores: 15 graus e lá fora um pinga pinga interminável.  Era guarda-chuva, era capa,  e eram tantas outras proteções improvisadas amontoando-se na entrada da Maison du Patrimoine. Lá dentro, mais quente, Histoires en Villages, a exposição: fotos e textos; retratos e relatos, papel preto & branco e etnometodologia revelando poeticamente a ligação dos habitantes, celtas e não-celtas, com a terra em que pisam e moram. Trabalho árduo, quase quixotesco, realizado pela associação Accolade, tocada por Isabelle Elizéon e Nicolas Hergoualc’h, que, como eu, fizeram parte da equipe do filme Chanson d’amour, de Alexandre Braga.
Algumas horas depois do vernissage, avião, turbulências, sono, oceano e chego no Rio. A exposição também partiu em seu nomadismo para outro vilarejo [serão seis durante todo o verão europeu] levando consigo a oralidade da palavra, as fendas nos sotaques e nos rostos dos entrevistados, uma língua outra e, depois da guerra, da tragédia, da resignação, uma flor – numa foto ou sonho de foto – nascendo num muro de pedra daquela granja em ruínas… ou simplesmente desfocada.