Ontem, o amigo e cineasta Alexandre Braga me escreveu para dizer que seu filme sobre meu espetáculo, “Buritizal”, ganhou o prêmio “Ficção” na competição nacional do FICAP - Festival Internacional de Cinema de Artes Performativas, em Lisboa.
Leia abaixo minha resposta à sua mensagem:
Alê,
Quanta notícia boa.
A cada vez que você me conta uma coisa dessas, eu lembro daquela madrugada que passamos aí em Lisboa, na Base Comunicação, para filmar o “Buritizal”. Acho que naquela noite houve um momento de convergência de nossos respectivos trabalhos de ator e cineasta, convergência essa que começou a brotar no “Ce n’est pas une chanson d’amour” e, de um modo mais profundo, lá naqueles nossos anos de adolescência.
Então, o prêmio vale como um símbolo dessa convergência profissional, ética e estética. Ele mostra que outras pessoas a viram e a reconheceram. Eu te pergunto: não era o que, de certa maneira, almejávamos? não pela taça (é óbvio, né!), mas pela tal da “transmissão da mensagem?”
Fico contente por você, por essa “recompensa” às outras madrugadas que você passou na pós-produção do filme. Fico contente pela Base ter sido premiada. Um grande parabéns pra você e pra sua família que tolerou (acho eu) suas madrugadas na frente da mesa de edição!
Ah, queria ter visto seu breve discurso. Mesmo que pequeno, mesmo que num festival recém-nascido, eu queria ter visto. Tenho uma coleção de momentos assim: pequenos, rápidos, muitas vezes sem nenhum glamour, mas que contam imensamente para meu estoque de emoções vividas.
Eu vi o Brook by Brook (que também estava no FICAP) há alguns anos na televisão francesa. Peter Brook é um cara que admiro muito no teatro. Buritizal deve muito às leituras de seus livros e às peças que vi dele no Bouffes du Nord.
Alê, sabe que não tenho medo desse rio secar. Claro, tudo depende de nosso desejo… Mas o desejo às vezes vem tão disfarçado, não é mesmo. Olha nossa história, da adolescência até hoje, temos esse imenso “lapso” de quase 12 anos de “não-comunicação” (que pensando bem não é nem lapso nem não-comunicação), e o rio não secou, pelo contrário, está correndo seu curso misterioso. Quem sabe, logo logo não explodimos em uma catarata, ou, pelo contrário: viramos peixe, sim peixes: um salmão, por exemplo, que depois de nascer em água doce, de migrar para o mar, de crescer, de evoluir, decide percorrer milhares e milhares de quilômetros para retornar ao local de nascimento para, finalmente, desovar… Possibilidades, possibilidades.
Pra mim tá muito claro: o rio e os peixes continuam vivos!
Um beijo pra você e pra sua família.
Inté.
Nereu